Crônica

Não temos wi-fi

Tenho me perguntado qual o futuro da comunicação nas relações. Onde vamos chegar, como vai ser e o que nos espera na próxima esquina, digo, milênio. Em termos de tecnologia vejo que caminhamos a passos largos, não vou me espantar se aquele negócio de se teletransportar, do Star Treck,  seja o novo celular! Nem falo mais em telefone fixo, esse morreu junto com o doutor Spock.  E se os aparelhos evoluem com a velocidade da luz, as novas gerações acompanham  com seus chips embutidos sei lá onde! As crianças vão nascendo cada vez mais antenadas, ligadas e conectadas. Tem bebê celebridade com Instagram!  E pasmem: tem mais seguidores que o número de habitantes da minha cidade!! Por essa, nem Stanley Kubrick imaginaria. Meus questionamentos são sobre a velha comunicação olho no olho. Sim, penso nisso.

No meu manual de instruções de vida, cartilha praticada há anos na minha família, herança mesmo, passada de mãe para filha, a conversa é coisa séria, faz parte dos relacionamentos, sejam eles quais forem. Um papo aberto no pé da orelha com um filho, amigo ou parceiro é tão importante quanto à conversa com o cachorro de estimação ou o chefe. O importante é conversar pessoalmente, de corpo presente e cabeça principalmente. Porque cá pra nós, o que tem de gente que faz figuração de si mesmo, não tá no mapa, né? Nem no Google maps! Só pra ficar na seara moderna e tecnológica atual!!

Minha preocupação se baseia em cenas cotidianas que tenho, infelizmente, diga-se de passagem, assistido. E eu falei no plural, atentem! Famílias sentadas à mesa de algum restaurante sem dar um pio, nem grunhido nem nada. Diálogo então, nem pensar! Sabe aquela coisa antiquada, de um fala e o outro responde? Diálogo é isso. Ou era. Pois agora é assim: cada membro com um celular na mão em estado de pura concentração e foco – no aparelho, óbvio. Silêncio perturbador. E comida fria, muito provavelmente!

Acho deprimente, acho um prejuízo de tempo e de dinheiro também, porque não. Se for para ficar grudado no telefone, fiquem em casa e façam um macarrão instantâneo, ora bolas. Mas essa não é a pior parte. Para mim, o assustador é a falta de assunto mesmo. As pessoas estão deixando o convívio de lado para verificar o whatts app, mandar mensagens, atualizar e dar uma olhada nas últimas das redes sociais. Isso quando não estão fazendo vídeos para seu público, enquanto isso sua pequena platéia familiar está… fazendo o mesmo. Cada um na sua. Já me ocorreu que talvez, as novas relações aconteçam através de grupos virtuais. Pai fala por áudio com o filho, perguntando o que ele está achando da batata frita: -Está crocante? Quer que eu peça outra porção para você? E o filho manda a resposta: um emoji de joinha! Detalhe: um sentado à frente do outro.

O que é isso companheiro? O que vai acontecer com nossa intimidade? Essa mudança de prioridades me preocupa muito. Rolar o dedo na telinha do telefone acabou tomando lugar do contato entre as pessoas, do encontro. Imagino que os relacionamentos serão seriamente comprometidos. Desde quando o celular passou a ocupar esse espaço sagrado do olhar, da voz e da intenção? Eu perdi esse bonde, definitivamente. Mas quer saber? Ainda bem.

A vida já é tão corrida com tantos afazeres, as famílias são tão compromissadas e, mesmo assim, as pessoas não se dão conta da vantagem e do privilégio de encontrar-se em uma mesa de refeições. Uma mesa familiar é tudo! Metaforicamente dá para afirmar que a vida passa pela mesa. Entre uma garfada, um café ou uma discussão, todas as emoções estão naquela mesa. E naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele dói demais em mim. O poeta só não podia prever que seria praticamente uma mãe Diná e o “ele”, no caso, seria o papo. E papo vai, papo vem… papo foi. Acabou.

Saudades de uma boa famiglia italiana de filme, daquelas em que todos gritam, brigam e gesticulam muito diante de uma macarronada da mama. Cartas na mesa, sempre, mesmo que seja dentro de um estabelecimento comercial, grande coisa, quem se importa, o que interessa é falar. A cena agora é entrar no restaurante e antes de tudo verificar se tem wireless. Muito mais necessário que bom cardápio é estar conectado à rede. Preço? Quem se interessa?! Tem novidades para contar? Lêem no feed de notícias. O prato é gostoso? Não sabem! Mas correm para fotografar e postar! Corra lola, corra, que o mundo mudou.

Mas na minha casa não. E na casa de meus amigos também não. Todos somos uma grande máfia da boa conversa à mesa. E já vou logo avisando aos navegantes, que aqui não tem conexão, conversem. Ah! E deixem seus celulares na porta de entrada. Não sou besta, vai que tem quatro G?! Apelo: por favor, não troquem suas amizades por uma senha de wi-fi!

4 comentários

  1. Divertida e profunda reflexão, de um tempo que realmente não sabemos quais serão as consequencias. Ou infelizmente já estamos presenciando algumas… Também não quero perder o foco, nem o papo, e seu texto só me inspirou e alertou para não ser escrava da modernidade.

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  2. A coisa está ficando tão feia que até ligação telefônica virou item de luxo! As pessoas não conversam pessoalmente, nem por telefone. A comunicação tem que ser criptografada: mensagens, áudios…Hoje, eu só ligo sem medo de ser inconveniente para minha mãe, meu marido e meus filhos! Para todos os outros “contatos” sempre passo uma mensagem antes: “gostaria de falar com você. Quando posso ligar?”. Parabéns Dani pela sua reflexão. Que todos nós pensemos um pouco nisso!

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  3. É verdade, por isso na minha casa é moda antiga. Não tem aparelho nenhum na mão e só pode sair da mesa quando todos terminarem de comer. Meu ano novo acampei em Malibu e a melhor coisa foi que não só não tínhamos internet, mas o telefone celular não tinha sinal algum também. As primeiras duas horas deu pânico, depois foi só a mais pura diversão.

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  4. Delícia de texto, do tipo “por que não fui eu que fiz?”. Adorei e concordo 100%! Torcendo por uma conversa pessoalmente com você em breve, sem celulares por perto. Beijo grande e parabéns por mais esta gostosa reflexão.

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