Crônica

Adolescer

Como tudo nesse século, até a adolescência querem antecipar. É a tal da pressa em chegar não sei aonde. Nas rodinhas de mães que frequento, é normal e corriqueiro ouvir a frase “tá tudo muito rápido hoje em dia!!” Também pudera, os pais decidiram que os filhos tem que se desenvolver!! Tem criança solta pela internet até a madrugada. E online!! Querem o que? Sem querer querendo, estou julgando esses progenitores permissivos.

Outro dia, a filha de nove anos de uma amiga deu um xilique daqueles e sua avó me olhou bem séria e disse: é a adolescência chegando! Não, minha senhora, é falta de educação mesmo! Essa adolescência aí, acaba num bom canto do pensamento! Limites exterminam a birra dita adolescente em dois tempos! Desde quando garotas dessa idade estão adolescendo?

Desde que o mundo perdeu a noção do tempo e do bom senso. Agora é moda? É legal ter filho adolescente? Juro que não estou entendendo. Na sala de aula de minha filha tem uma colega que faz tutorial de maquiagem pela internet. Não, ela não assiste os vídeos. É a própria quem produz e ensina. Semana passada fui obrigada a ver, porque tive uma festa e não sabia como usar o delineador. Olha… A garotinha é um espetáculo! Dez anos de puro conhecimento da cosmética. Só me preocupa o que será daquele rosto angelical quando ela estiver na minha idade! Se bem que a mãe dela deve ter muita esperança no avanço da indústria da beleza!

As fases da vida estão sendo comprometidas e atropeladas por novos padrões. A sociedade secreta em que vivemos está impondo esses novos paradigmas. Para a lei, esse período de transição entre a infância e a idade adulta, vai dos 12 anos aos 18. Mas como burlar a lei no nosso país também é moda, reparei que está começando com cinco anos e, em muitos os casos, não tem idade para acabar! Ad eternum.

O marido de uma conhecida, advogado, pai de família de três filhos, na casa de seus quarenta, na certidão de nascimento, que fique claro, me surpreendeu profundamente outro dia. O cara construiu uma pista de skate no quintal de casa e tem feito umas reuniões grunge, no maior Seattle style. Sem ser preconceituosa, cada um faz o que quer, como quer e onde quiser, é que soube que as filhas queriam uma casinha de bonecas e perderam a chance para o melhor half pipe da vizinhança. Pra ser honesta, o único. E também não tem mais piquenique com a garotada, o negócio agora é bermudas com camisa xadrez enrolada na cintura e Nirvana no talo! Toda a sexta-feira.

E segue a adolescência. O problema que percebi nessa família, é que anteciparam a adolescência do filho mais velho, um menino de onze anos, que se encontrou com a adolescência do pai. Na verdade, se chocou. E deu ruim! Estão disputando as roupas, as músicas, os amigos e os hormônios! Tá complicado! No último torneio de skate que rolou na cidade, competiram entre si e brigaram feio. Assisti a discussão entre os colegas, mas confesso não ter entendido direito. Eu ainda não ganhei um dicionário das gírias de hoje em dia.  A esposa/mãe acabou levando os dois pra casa e pôs de castigo! Ficaram uma semana inteira sem seus skates, pensando no que fizeram.

E daqui em diante, pelo jeito, será assim. Sem mais se basear em dados, em conceitos ou normas, tudo sendo resignificado, realidades modificando e vale-tudo. Daqui a pouco teremos o veredito da Organização Mundial da Saúde, reclassificando o período, e as fases, para: cada um decide o seu e salve-se quem puder!

A propósito, quem souber o que é poser, tiltado e flop mande cartas para a redação. Vai me ajudar a entender o mundo adolescente.

 

6 comentários

  1. Dani, você tem o dom de traduzir em palavras algumas das minhas mais profundas indignações e inquietudes! Obrigada por fazer com que eu não me sinta só 😉

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  2. Estou diariamente observando e pensando sobre tudo o que você escreveu.
    Tenho duas adolescentes em casa, uma de 14 e outra de 15 anos e estamos passando bem, obrigada..rsrs…
    O mundo está muito diferente e todo o meu foco está voltado pra elas, muitas descobertas, muitas mudanças, muitas conversas e como você disse: elas estão com 14 e 15 anos, não com 18 e 19…
    Bjs

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  3. Já sabia, agora tenho certeza! Estou velha! Não tenho a mínima ideia do significado dos vocábulos que encerram a crônica! Pelo menos, um consolo: não verei meu filho disputando campeonato de skate com meu marido! Aguçada sua percepção da adolescência extemporânea, tanto a precoce quanto a tardia! Crônica perfeita, com sempre!

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  4. Tbem não faço ideia do que significam as novas gírias !! Velhos adolescendo e crianças adultecendo são a mais triste constatação da sociedade atual. Parabéns pelo texto !

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