Crônica

Reflexões

Fico pensando porque os jovens tem tanta pressa. Uma urgência quase doentia e sem explicação. Eu sei que o tempo passa de maneira diferente para todos nós. Em cada fase da nossa vida, o relógio gira em um ritmo. Ora muito devagar, ora acelerado feito pá de ventilador. Para certas pessoas gira até anti-horário. Tudo é relativo, já dizia aquele senhor abusado botando a língua para a sociedade. Mas precisa ter tanta ansiedade? O jovem quer fazer tudo rápido, não pode esperar e acha que não tem todo o tempo do mundo. E além disso, tem mais o que fazer!

O sobrinho de uma amiga minha com seus super vividos e experientes vinte poucos anos está a procura de emprego. O primeiro. Quer dizer, como empregado de alguém, porque já teve seu próprio negócio. Já empreendeu. Sabe como é, tem que partir para ser dono de seu próprio nariz ou negócio. Ou ambos. Mas o que aconteceu com a empresa mesmo? A crise, ele responde.  O garoto, diz que até mesmo os grandes empresários do país estão sofrendo, imagina eles, os pequenos, ou médios, sem incentivos, financiamentos, impostos estratosféricos, a bolsa de valores de Xangai, o Dow Jones (não sei quem é, nem o que canta!!), a febre aftosa e por aí vai. Nossa! Rendeu uma noite inteira de aula de economia. E eu? Burra que só, fiz a minha mais bela cara de entendida…

Perdi esse trem. Nem sei em que estação ele passou. Minha geração Coca-Cola fez outra coisa. Nossa turma pegou a marola. Na verdade só sentiu. De longe. Talvez o cheiro. Mas não nascemos nessa era moderna digital. Nem econômica. Nem de autonomia. Muito menos de pequenas empresas, grande negócios. Nossos sonhos foram outros. A nossa pressa também. Sim, também já tive pressa. Deixa pra lá. Acho que todos tivemos. Não vou falar disso. Não tenho procuração para falar de meus iguais.

Voltando a história, o rapaz contou que mandou currículo pelos mais variados meios de comunicação, que hoje chamam de mídias sociais. Novidades para mim. Esperou um dia apenas e partiu para o ataque. Incrível! Um dia? De vinte e quatro horas apenas?  Até nem sei se hoje os dias tem mais horas que os de ontem, ou outrora. Confesso que fiquei bem chocada. Não existe esperar a resposta. Existe ir pascabeça! Quer meu serviço? AAAA! Não quer? Tem quem queira! Ual!! Nunca tinha visto tamanha confiança! Ousadia ou pretensão? Responda se for capaz. Eu não sei dizer. Não sei mesmo! Nem pretendo julgar! Só me espanto. E reflito.

No século passado não fazíamos assim. Ficávamos sentados à espera de um telefonema (quase piada hoje em dia esse negócio chamado telefone fixo – peça de museu), muitas vezes agarrados à oração da Santa Edwiges, vela acesa e focados no pensamento positivo! Será que fui bem na entrevista? Será que me saí bem no psicotécnico? Desenhei o chão da casa? Caraca não lembro!! Botei olhos no meu boneco de palitos? Também não lembro! To ferrada! E minha roupa, foi adequada? Esqueci de passar o vinco da calça!! Juro que se der ruim, nunca mais chego perto de um ferro e vou gastar minhas economias para comprar um guia de moda da Célia Ribeiro! Essa era nossa dura realidade. Desistíamos após um mês, ou dois, se não nos chamassem de volta. E trocávamos o Santo. Isso sim com muita urgência!

O primeiro emprego sempre demorou para nossa galera. Não raro vinha com o primeiro fio de cabelo branco arrancado numa crise de raiva! Ódio do mundo! Ódio do entrevistador que não foi com nossa cara. De pau. Mas quando a carteira de trabalho ganhava o primeiro autógrafo, agarrávamos amor por aquele lugar e só terminávamos o caso de paixão quando demitidos. Agora não é mais assim. Também mudou. É o empregado que tem que pegar afeto no patrão. Caso contrário, é tchau e benção! Não tem certo, nem errado. Tem diferença. Outros tempos!

Ninguém se prende, nem se rende, nem mente. É pá, pum! Foi, não foi! Quero ou não. Corro, porque tudo é pra acontecer ontem. Um toque de dedos em aplicativos ultra modernos e fazem o mundo acontecer e as horas passarem. Semideuses. Comandam o tempo e a vida. Pressa. E nós? Bora tentar nos adaptar. Eles podem. Ele são os Milleniuns e nós, os Veleniuns!

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