Crônica

Sonhos de uma tarde de verão

Andy Warhol, ícone da Pop Art americana, profetizou certa vez dizendo que “um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama”.  Nesses tempos de tantos realitys, nem ele imaginou que estaria tão certo. Eu mesma, que não sou ninguém já tive o meu. Bem, quase.

Quando era adolescente morava num bairro classe média, família e ao mesmo tempo, super alternativo na cidade, uma capital.  Esse termo na década de oitenta, significava o mesmo que os descolados de agora. Mais ou menos isso, com algumas ressalvas, é claro. Sublinhe na sua leitura, década de oitenta! Vou tentar explicar: onde circularam as primeiras tatuagens, os primeiros cabelos moicanos e nasceu o rock local. O bairro era uma grande garagem. Tinha até uma tentativa de punk. Digamos que, um pouquinho longe da Inglaterra eles mais pareciam uns mendigos vestidos de zumbi, mas bora lá. Era  o que tinha. E eram respeitados como tal. Galera altamente revolucionária. Até hoje não sei exatamente a função deles no meu bairro, nem a utilidade, quem eram e o que comiam. Muito menos o legado. Talvez só para dar susto nas velhinhas da vizinhança mesmo. Mas foram importantes para o cenário.

Minha família morava em um pequeno prédio no coração do bairro. Um belo dia demos de cara com novos inquilinos no apartamento do primeiro andar. Uma mãe com seu filho único, outro adolescente cabeludo! Juntando com meu irmão mais velho, somavam-se quatro no edifício. Praticamente uma quadrilha! Mas dado os acontecimentos da década, poderiam ser, quem sabe, uma banda de rock?! Ual!!!! Essa foi nossa surpresa ao saber que André – o tal vizinho novo, era roqueiro e até já tinha seu grupo musical!

Espalhei a notícia entre minha corja feminina numa boa premonição de meu futuro jornalístico (quem me chamar de fofoqueira vai se afogar no próprio veneno) e num bom português, tivemos um surto! Naquela época ser próximas dos próximos quem sabe, e talvez, stars, era como se hoje fossemos próximos dos próximos celelebs! Entendeu? Eu também não! Para traduzir: se encostar em quem faz sucesso é puro interesse e as vezes sobram luzes para nós também! Isso acontece desde que o mundo é mundo! Ou você acha que Moisés não se encheu de melhores amigos de infância depois de fazer aquele lance com o Mar Morto? Não sejamos ingênuos! Diga-me com quem andas que te direi onde vais, com quem vais, quando vais, etc. Networking.

O fato é que meu irmão não deixou minha gangue noventa nem nossas absurdetes, entrar na turma! Nem se aproximar! Coisas de amor fraternal! Tipo cada um no seu quadrado. Mas como sempre fui atrás de um bom furo de reportagem (de novo não pense em fofoca!!) escutei atrás da porta, que a banda do tal André, estava precisando de um vocal!! Pra que! Era a nossa chance de escrever o nome no topo da lista Billboard! Jurei que seria a Paula Toller do bairro. Já estava me vendo no Globo de Ouro! Treinei minha letra para dar autógrafos. Em tempo: isso é o avô da selfie!

Armamos um plano, porque estratégia é tudo para o sucesso, e botamos pra quebrar! No caso quebrei minha mãe, coitada! Quase fali ela! Convidei todas as minhas amigas para almoçarem na nossa casa por uma semana inteira!! Saíamos da escola correndo pelas ruas com nossos siders Company, tirando lenços de bandana da Company de dentro da mochila Company e amarrávamos na testa para ir entrando no clima e estilo rock and roll! Adentrávamos meu prédio já afinadíssimas como umas taquaras rachadas e em altíssimo e bom som, afinal precisava entrar na sala de estar do apartamento 23, soltávamos a voz: fazer amor de madrugada, lá, lá, lá…. Foram sete dias assim. Mentira. Lembrei que foram só cinco. Pausa para o final de semana.

Resultado? Nada! Uma semana e o convite para vocalista não chegou! Nem backing vocal. Nem pra produção. Nem pra carregar caixa de som. Nada! Bem, chegou uma reclamação escrita do condomínio clamando pela ordem e pelo respeito à lei do silêncio! Castigo à vista! Perdi a festa do Sunday da Cidade naquele domingo!

Passados alguns dias, ouço passos na escada, tipo Ritchie, e toc, toc, toc na porta. Antes de entrar na estrofe, vejo a porta abrir… olho mágico: André!!! Caramba! Deu certo! Funcionou! Tanta gritaria não foi em vão! Perder a mesada também não! Levar minha mãe a falência, a gente deu um jeito! Pensei na roupa que me apresentaria no show! Calça bag da Philipe Martin ou semi-bag da Zoomp?? Depois eu vejo… jaqueta neon verde limão, será? Pensei na Blitz! E esse meu cabelo, corto ou não? Pra quem vou dar os convites do show? Não vou convidar a Cláudia, ela duvidou do nosso plano! Bem feito pra cara dela.

Respirei fundo e abri a porta com meu mais lindo sorriso metalizado de aparelho da década: oooooi! Ele: teu irmão está em casa? Eu: só isso? Ele: como assim? Eu: nada não, ele não está… Ele: tchau!

E foi assim que meu sucesso aconteceu e terminou. Numa linda tarde de verão eu bati lá no Rock in Rio 1985 e voltei. Pensamentos contam como meus quinze minutos de fama? Quis me esconder de vergonha. Pensei em virar punk da periferia, mas até eles moravam ali pertinho. Coloquei meu disco do Dire Straits, chorei e fui escorregando encostada na porta até o chão. No melhor modo novela das oito em versão para adolescente frustrada. E na mesma rapidez que fui estrela da música, reparei um certo dom para a interpretação. E se eu tentar a carreira de atriz? Gramado é logo ali. E comecei a pensar qual discurso faria ao ganhar meu primeiro Kikito.

 

 

5 comentários

  1. Arrasou!!! Quem não teve um sonho de ser estrela na adolescência? O que você ainda não tinha ideia era que seu maior talento estava na escrita! Quem sabe não rola um prêmio Jabuti de cronista?! Nunca é tarde para brilhar! Beijos e obrigada por nos proporcionar essa deliciosa leitura!

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