Crônica

Férias escolares

As férias de julho terminaram, graças a Deus, segundo Maria das Graças. Minha querida amiga que a esta altura está finalizando sua estada num spa para relaxar! Ela quase surtou, não aguentou, teve enxaqueca dia sim, o outro também. Mãe de dois rebentos em idade de tocar o terror, a coitada pediu arrego. Sucumbiu às férias escolares dos filhos.

Assim que o bilhete da direção da escola chegou na agenda do mais velho, minha amiga entrou em choque. Na mesma hora me ligou e questionou. Como assim? Férias em pleno andar do ano? Não vão aceitar as crianças nem meio turno? Quem vai dar o almoço? Informei que, se ela não lembrava, sim, tinha parido aqueles dois monstrinhos, digo, crianças. E que normalmente na nossa cultura ocidental, somos nós, os pais, responsáveis pelas criaturas. Pelo menos até a hora de criarem juízo e saírem de casa, não antes de terminarem a escola, fazer (e passar) no Enem e concluírem a universidade.  Arranjar um emprego para se sustentarem, fazia-se necessário também. Resumindo, a coisa vai longe. Sem querer deixar a amiga em depressão, com o País do jeito que está, o desemprego galopando mais que cavalo alazão, com sorte, aos 40 anos, as crianças estarão saindo de casa!!

Ouvi um grito lancinante e tu, tu, tu…. a ligação caiu. E ela também. No chão.

Maria da Graça passou a semana inteira dedicada e enfiada dentro do Google, moderna como ela só, pegando dicas e macetes sobre “o que fazer com as crianças nas férias”. Acumulou umas 20 horas em vídeos de tutoriais no youtube! Descobriu coisas e lugares inacreditáveis na cidade. Fez planilha no excel, uma tabela linda e incrível! Dividiu em dias, turnos e horários. Agendou  toda a programação para sua tropa de elite. Depois partiu para a tv. Foram horas e horas assistindo aos programas de culinária mais saudáveis que existem no mundo. Largou com aquele inglês loirinho, depois pra aquela brasileira que ensina as crianças a comerem cumprindo metas, e por último, a diva, a mestra, o mito baiano de turbantes coloridos (aquela que propõe trocar arroz por grão de jaca verde). Plantou alecrim, salsa e mais um monte de ervas na sacada do apartamento. Praticamente uma Provence urbana e brasileira! Tudo pronto! Pode tocar o sinal! Partiu férias de julho, declarou ela, com voz de general de campo de guerra.

Primeira batalha: almoço! Maria da Graça preparou um cardápio daqueles de passar debaixo da mesa à lá Ana Maria Braga. Não deu certo. Muito choro depois, cara de nojo, ânsias e um marido emburrado, o jeito foi apelar para um macarrão instantâneo escondido na despensa. Rezou para não estar vencido. E aí a frustração da minha dedicada amiga estava apenas começando. Fiquei com pena.

Repassou sua planilha tão bem organizada com as atividades e objetivos que as crianças teriam que realizar. Chamou uma reunião com os pequenos para apresentar os planos. O menor nada entendeu. O grande, o que entendeu, não aceitou e voltou para TV. E foi mais uma batalha perdida. Maria da Graça sem querer entregar os pontos, voltou para o computador, não sem antes disputá-lo com os filhos. A tapa. O que estaria fazendo de errado? Onde está o problema do planejamento estratégico? Qual  diagnóstico desta interface? Como quebrar os paradigmas das férias escolares? E a dor de cabeça se estabeleceu e ela perdeu a graça, sem querer fazer trocadilhos.

Foram quinze dias de inferno para todos os habitantes daquela casa. Mãe tresloucada entre manuais de instrução,  filhos entediados se acabando na luta pela sobrevivência e pai achando que todos deviam manter a calma que o Titanic iria se salvar. Bem, ele tinha razão, salvaram-se todos. Mas a pergunta que eu fiz a Maria da Graça: não seria mais fácil questionar o que os rebentos gostariam de fazer? De comer? Onde, quando e se queriam passear? Não acho que criança tenha que mandar na família, mas acredito que devemos respeitar seus gostos, sua idade e seus interesses.

De todos os programas que minha amiga sugeriu e tentou fazer, ela esqueceu o de brincar de conversar! Muito legal essa brincadeira, principalmente em família. Talvez no spa ela tenha tido tempo para refletir. Ou não.

 

 

 

 

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