Crônica

Geração Moderna

Percebi que sofri um duro golpe da vida. Não sou mais moderna. Não estou na última moda. Não sei nem se conheço a tendência. Vanguarda muito menos. Contemporânea nem pensar. Ultrapassada, isso sim. E passada, com certeza! Acho que isso é o que chamam de conflito de gerações. Fiquei pra trás. Nunca pensei. Mas aconteceu comigo! Como eu sei? Explico.

Existem alguns sintomas que se manifestaram pouco a pouco e hoje, claramente são percebidos. Eles gritam e berram anunciando, sem me poupar da vergonha, que fiquei parada no tempo.  Eles foram me atacando e eu fui permitindo. Achei que não acompanhar a galera seria pontual – chamar os jovens de hoje de galera, é sintoma. Uma coisinha aqui e outra ali. Uma música que meus ouvidos não gostaram, uma roupa que não gostei do corte ou uma bota plataforma em forma de trator! Oi? Sim, esse solado está na moda. Eu li. Ler continua na moda? Pois bem, tem mais festivais de música no mundo que meu cérebro consegue memorizar. Parei no Hollywood Rock, de algum verão da década de 90. Música eletrônica pra mim é guitarra elétrica ligada na tomada. Simples assim. No máximo 110 ou 220.

O último romântico Lulu Santos agora é só um jurado de programa de tv. Pouca gente sabe quem foi Cazuza ou Renato Russo, meus poetas. Nem vou mencionar os meios em que ouvíamos as músicas, porque vai denunciar muito a década em que nasci, mas agora são plataformas digitais!! Não me peça para explicar, porque eu mesma não sei do que se trata.  Não sei como se baixa música. Não sei como tudo na vida se resolve com USB. Não consigo decorar um só nome de música, muito menos de quem canta e menos ainda cantar. Nem consigo reconhecer estilo musical. Aliás, também não sei se isso ainda existe.

Quando penso na tecnologia da nova era me sinto o próprio Matuzalém. Sabe o que aconteceu com a carta e com o modernérrimo email? Viraram direct. O filme de 36 poses coloridos, revelado e as fotos lindamente organizadas naquele álbum com capa de Paris? Virou Instagram com tag e follows. A máquina? Tá no telefone celular. E as fontes de pesquisa? A biblioteca pública agora responde pelo nome Google. A Barsa, a Britânica e o Lelo Universal se chamam Wikipedia. Xerox? Tudo digital! Isso tudo sem mencionar a tal nuvem, fenômeno tão esquisito quanto misterioso pra mim. E eu? Choro lágrimas virtuais na frente do computador porque não mexo nem na metade das coisas. Sempre chamo minha gerente de TI de apenas 10 anos. “De nooooooooooovo mamãe!!! Eu já te expliquei!!!”

Uma colega de idade (da minha) ficou impressionada ao ver sua filha e as amigas dela, todas, digitarem os celulares com os dois polegares. Um exercício absolutamente impossível para a coordenação motora de nossa geração. Como eu sei? Quando a minha amiga contou, ficamos as duas testando nossa habilidade, a tarde inteira. O que aconteceu? Ela deixou o celular cair no chão espatifado e eu mandei mensagem para o pedreiro avisando que iria comprar pão!!! Impossível essa manobra! Fiquei besta com a desenvoltura da rapeize – esse termo também não pode.

Até a comida da minha época, nunca pensei em dizer isso, também não é mais moderna. Arroz e feijão era o que tinha pra hoje. Nesses tempos atuais até eles ganharam cara nova. Tem gourmet, tem fit, tem fibra, tem nome, sobrenome e endereço na web. As frutas a mesma coisa. Nasceram umas que nem sei dizer o nome. O sal é cor de rosa, porque veio do Himalaia (?) ou vem travestido de flor. E os grãos? Caraca! Tenho certeza que a professora da academia que eu estou (só) matriculada comeu alpiste de periquito na marmita dela. Sim, agora é super moderno levar marmita para os eventos. Brigadeiro de aniversário? Só se for embalado cheio de bossa e novidade. Disfarçado de Gracyanne Barbosa, aquela musa fitness casada com o pagodeiro – esse sim começou no meu tempo. Ah! Tem também o brigadeiro branco Juju Salimeni, com promessa de muitos músculos. Receita fácil e saudável: leite de cactus do semiárido do Equador condensado com quinoa e chá verde, para dar um toque de notas agrícolas. Sem glúten, sem lactose, sem carboidrato, sem açúcar e sem gosto.

Então é isso. Esse é o conflito de gerações. O mundo girou para um lado e eu fiquei. Fiquei me achando, usando gírias dos anos oitenta e noventa. Velha. Curtindo festa embalada por rock Brasil e me balançando como uma chacrete. Ridícula. Dedilhando mal e terrivelmente o aparelho de celular, tentando descobrir senhas e logins. Ultrapassada. Sonhando com a Ilha do Mel, enquanto todos querem as Seychelles. Sem noção. Comendo X e amando estrogonofe. Totalmente anti gastronomia. Antiquada. Tirando retrato ao invés de self. Inútil.

Muito difícil. Estou praticamente arrasada! Não sei se consigo mais viver bem aqui nesse mundo sem seguir um tutorial no youtube, dica da minha diretora de tecnologia. Ah! Esqueci de dizer. Nossos ídolos também já não são os mesmos e as aparências enganam, e como enganam.

 

 

 

 

 

4 comentários

  1. Minha querida, você conseguiu traduzir com humor e maestria esse descompasso que todos nós que vivemos a adolescência entre os anos 80 e 90 sentem! Com o avanço tão rápido da tectonologia, penso: será que daqui há três décadas nossos filhos também estarão “ultrapassados”? Só rindo, para evitarmos as lágrimas virtuais. Beijos.

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  2. Amiga , tu é muito boa nisso !!!! Perfeito !!!! Também me sinto assim… fiz meses de datilografia , me achava a expert … quando de repente essa nova geração escreve muito mais rápido com os dois polegares . E eu ? Demoro um monte para escrever com o indicador … Quanto às músicas , sem comentários …. não sei nada .
    Um beijao !! Excelente sua reflexão .

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