Crônica

Ela só quer dançar

Não sei o que acontece com esse blog, mas está virando um confessionário de reality show. Tenho uma vontade inacreditável de contar tudo neste espaço, todas as minhas verdades. As de verdade e as de mentira também. Falo tudo e só peço que eu não vá para o paredão moral. Então voilá: não sei dançar. Pronto, falei!

Sacudir o corpo, mexer os quadris e levantar os braços não é necessariamente dançar. E isso eu sei fazer. Digamos que o que eu faço esteja mais próximo do que chamam de expressão corporal. Esse é o nome bacana. O nome popular acho que seria… sei lá, melhor não mencionar. Deixando os floreios de lado, sou boa no teatrinho. A pessoa que está assistindo minha bagunça, quer dizer, o espetáculo na pista, pensa que está diante de Ana Botafogo, jamais da rainha da perna de pau. Faz quarenta anos que engano o povo!

Já tive meus momentos de tensão em que fui o centro das atenções. Sabe aquele pesadelo recorrente em que um salão inteiro, mais de uma centena de pares de olhos estão em cima de você? Te olhando, observando e o que é pior, julgando? Eu vivi isso de verdade com o futuro marido na festa de casamento. Que cá prá nós, que ele não me leia, parece um boneco de madeira com toda a malemolência que o material pode ter. Se é que você me entende… Portanto, meu parceiro de dança dos famosos tem, digamos, o mesmo nível que eu.

Música escolhida, lentinha, linda, prá lá de romântica, para dançar juntos. Amor e felicidade no ar! O clima perfeito, tudo pronto para um lindo show! Bem, na hora eu achei um show, mas hoje assistindo a fita VHS, sim é claro, afinal de contas foi no século passado, não sei se choro de rir ou choro de vergonha. Eu e meu marido juntamos as mãos no melhor estilo palma com palma e fizemos um movimento inacreditável. Parecíamos um frentista de posto de gasolina limpando o vidro para-brisa. Movimentos circulares! Oi? Que mico! Ainda bem que amor não tem nada a ver com pa de deux!

No rock, pop, axé e semelhantes eu faço a linha enfiei a cabeça na tomada 220 volts e saio rodopiando, balançando, sacudindo e dançando em rodinhas e grupinhos, e aqui o palco é meu. Disfarço tão bem que ninguém percebe que nasci com os dois pés esquerdos. Quer dizer, eu acho né, porque para falar a verdade estou tão compenetrada para não errar minha coreografia, que nem dou bola pros outros. No máximo vão achar que sou a rainha da dança contemporânea e quando o assunto é vanguarda, ninguém questiona, muito menos desconfia. Faço a linha  “to nem aí” e vambora!

Na hora do samba então, é o meu melhor momento, ou dependendo do ponto de vista, o pior. Quando toca o ritmo no salão eu tenho vontade de criar asas e voar, para bem longe óbvio. Deus é testemunha que eu já tentei ser a globeleza, mas não deu certo. O mais perto que cheguei foi parecer um boneco de oficina mecânica com os braços abertos e sacudindo freneticamente. Ou também de um gringo da Eslovênia em pleno carnaval carioca com os dedinhos indicadores pra cima e pra baixo bem fora do compasso e da batida da música. E os pés formando um clássico “quinze-prás-três”, espanando o chão alternadamente! Vergonha nacional! Lembram-se do Príncipe Charles com aquela negona linda e careca, a Piná? Então, eu sou o príncipe. Óbvio! Ai que pena de mim.

Imagino que depois de ler este lamento sobre meu estranho dom para a dança, você deve estar pensando que eu odeio um convite para uma festa, certo? Errado! Rezo sempre para ter um casamento na família ou uma formatura, porque estranhamente adoro uma função! E mais louco ainda, adoro dançar. Eu falei que não sei, não que não gosto! Não, eu não sou masoquista, nem palhaça. Amo me divertir. Quando surgem acordes alegres, já jogo os braços pra cima de um lado para outro! Encaro qualquer música. Ainda por cima, é corajosa a criatura!!

Quem canta seus males espanta. E quem dança também. Mas tomei uma decisão. Como sou uma pessoa super generosa, e modesta também, na próxima festinha, terei pena de vocês por todos os anos de espetáculos cômicos de minha parte e quando tocar aquele pagodinho da moda, aquele que faz com que até a rainha Elizabeth queira disputar o cargo de madrinha de bateria, e vou sumir. Farei uma cara de reunião importante e inadiável e vazar. Prometo! Cheguei à conclusão que ninguém tem culpa da minha falta de noção!

4 comentários

  1. Amei sua crônica, muito bem escrito e com humor o que torna muito mais gostoso de ler. Também paguei o mico da dancinha do casamento e foi exatamente assim como você relatou…hahahaha
    Parabéns pelo blog e adorando seguir você!!!! bjs

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  2. Litros de risos! Adoro suas crônicas!!! Ainda bem que não saber dançar não te afastou das pistas a vida toda! Eu também não sei bailar e sempre me escondi. Só agora, na maturidade, deixei pra lá o medo do “mico” e de vez em quando “baixo o santo” – como boa baiana – no salão! Estou seguindo o blog pelo wordpress, para receber as notificações de postagens. Beijo grande.

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