Crônica

Viajar

As férias estão chegando e imagino que em milhares de lares por esse Brasil a fora, o pensamento seja um só: viajar! Mesmo com a crise, mesmo com a conta do cartão de crédito estourada e até a do IPVA atrasada, o povo só pensa “para onde vamos?” Outro dia fiz uma rápida pesquisa, com meus próprios instrumentos de estatística, e fiquei absolutamente surpresa com o número de pessoas que amam por o pé na estrada! São milhares de contas nas mídias sociais que tratam desse assunto – e não é figura de linguagem, nem tampouco exageros de maluca, nem delírio. Milhares. E do mundo todo!

A partir daí, claro que uma luz vermelha acendeu em minha cabeça. Piscou. Piscou de novo. Tocou sirene. Tocou alto. Mas como assim? Não estamos todos matando cachorro a grito? Guardando ovo frito na geladeira? Tem um amigo que até já assou galinha de despacho e estourou o milho para fazer pipoca! Para ver a situação… Mas a passagem, a hospedagem no hotel e traslado estão comprados… Ah! E tem meia pensão! Pelas contas dele, ficou super barato economizar jantando no hotel!! Dá para entender? A pessoa tá de olho em macumba de encruzilhada, enganando a Pomba Gira e o Exu Caveira, mas as férias estão garantidas!

Refleti muito e minha conclusão não poderia ser outra, só existe uma explicação: epidemia! Será que ninguém percebeu ainda? É doença. E é grave! A nova gripe espanhola. O novo ebola. A nova peste negra. Tuberculose. Estão todos infectados! Todos doentes.

Os sintomas são muito claros. Não perdem um feriado prolongado, férias então, ninguém perde! Sempre ligados nas promoções aéreas, de passar a madrugada acordados para achar o melhor preço! O destino, nem interessa, e sim o desconto nas passagens! Tenho uma vizinha que já estava babando no computador de tanto sono, quando apitou o melhor preço. Bingo! Pensou ela! – Consegui! Disse ela. – Me dei bem! Acreditou ela. Comprou para Damasco, ida e volta para toda a família!! – Me ferrei!! Constatou ela! – Mas vou de executiva! Se conformou ela!! Em tempo: estão até hoje em um campo de refugiados esperando ajuda humanitária da ONU. E eu alimentando seus cachorros! Sou solidária, praticamente a Angelina Jolie das vizinhas!

Então é isso, seja na Síria, seja Miami ou Oiapoque, o que interessa é viajar! Quando a doença se manifesta, se não escolhe o destino, muito menos o meio de transporte, vale tudo! Se joga de avião, de carro ou ônibus. Na minha cidade teve festa para angariar fundos para um casal fazer sua trip de bicicleta! Foi uma comemoração e tanto! Fizeram página no feice, no insta, tuíter. Mandaram fazer outdoor, chamaram o prefeito, que fez um belíssimo e emocionado discurso! Chorei também, fazer o que? Fiquei super comovida! Contribuí dinheiro prum lanchinho. Tudo certo. Tudo lindo. As magrelas estavam prontas para se jogarem nas curvas da infinita highway, quando… Teve um quando. O casal se separou! Dizem as más línguas, que ela estava com a mochila muito pesada e ele não quis ajudar. A fofoqueira do meu bairro disse na última reunião da comunidade, que ele trocou a bicicleta dela por um avião boing modelo loiro, olhos azuis e alguns anos a menos… Vai saber! As mídias sociais foram todas encerradas. Assim como o caso! Assim como os planos!

Hospedagem também não é mais problema. Agora tá valendo trocar residência. Tem até nome pra isso: House-sitting e couchsurfing. A coisa tá profissa! Só não me peça para explicar, eu mesma não sei se isso é diagnóstico ou prognóstico. Só sei que não existe mais aquilo de dormir em banco de rodoviária, viajante sem teto ficou no passado. Também tá na moda alugar casas e apartamentos. Coisa fina. A pessoa se torna local, vira um típico parisiense, um típico romano, um típico cambojano. Uma prima minha foi uma típica inglesa durante duas semanas. Chiquérrima! Só levou seu travesseiro. Ela costuma viajar com seus próprios ácaros. Já disse que usa tudo destes apartamentos, mas tem apego por sua rinite!

Agora, de tudo que eu sei do novo mal do século, uma coisa ainda não decifrei. Como é o contágio? Seria mais uma vez o mosquito Aedes? Seria vírus? Bactéria? Tomando como base de observação minha pessoa, sim, fui contagiada no último verão e não paro de pensar na próxima viagem, o gosto por sair atrás de um novo destino é a curiosidade! A vontade de aprender, de conhecer e principalmente de ver com nossos olhos outras culturas, outros povos e muita beleza.  A gente pega a doença ou ela nos pega, através da mente e da alma. A coisa é muito pior! E dá licença que partiu planejar férias! Portas em automático, fui!

 

 

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