Crônica

Bolachas

Bolachas

Li numa revista que os discos LPs estão de volta. Quer dizer, de volta, de volta, não, mas ensaiando um discretíssimo retorno através de apreciadores, colecionadores e até alguns fabricantes. Explicado. Somos nostálgicos mesmo e essa ideia nos atrai. Na minha casa, mesmo sem aparelho para tocá-los, não nos desfizemos de nenhum disco de vinil. Estão todos lá, cada qual com sua história.

Minha memória pode não ser grande coisa, e não é, mas não esqueço de como eram os long plays. Músicas dos dois lados divididas em algumas faixas. Quando acabava um lado, tínhamos que parar o toca-discos e virar o disco, para tocar as músicas do lado oposto. Lado A e B. Eram grandes, enormes e pretos, salvo alguns infantis que inovavam na cor e no tamanho, todos eram pretinhos da silva. E sempre tinham aquele plástico para protegê-los. Necessário, aliás.

Lembram como era importante ter muita habilidade manual com a agulha? Quase cirúrgica! Crianças eram proibidas de chegar perto da eletrola, porque poderiam estragar o artefato ou arranhar o disco. Vem daí a expressão “disco arranhado” para aqueles que repetem, repetem, repetem a ladainha exatamente como as músicas de um disco riscado, que ficavam inaudíveis. O cuidado era bem extremado, mãos seguras, firmes e, ao mesmo tempo, delicadas! Ouso a dizer, carinhosas.

E os aparelhos três em um? Toca-discos, toca-fitas e rádio!!! Todas essas máquinas numa só! Caixas de som grandonas e potentes que mais pareciam um trio elétrico! Show! Eram sinônimos de riqueza pura! Podem acreditar. E pensar que o vinil já foi o máximo da tecnologia! Chocada.

Na minha família adquirir um disco era um evento. Sentávamos na sala para apreciar o artista e a capa passava de mão em mão. Não raro alguém pegava o encarte com as letras das músicas e cantarolava junto com a Maria Bethânia ou Vinicius de Moraes. Toda minha educação musical foi feita através das imensas bolachas, como também chamávamos aqueles discos pretos. Será que em referência as bolachas Maria, pelo formato? Pode ser, não sei. Vou pesquisar no Google e depois conto.

Mas bem sei que as bolachas me alimentavam com o que tinha de melhor da boa música e das artes visuais. Estou falando das capas! Nesta época, a dos vinis, muitas capas foram produzidas por artistas plásticos. Não é difícil encontrar numa roda de conversa com a turma cult do passado, o assunto das clássicas capas. Até mesmo o expoente da Pop Art, Andy Warhol, fez uma! Um luxo! E as dos Beatles? Sgt. Pepper’s, Revolver, todas lindas! Pink Floyd com The Dark Side of the Moon fez história! Existem listas de capas icônicas. E algumas são peças de museu. Por serem bonitas e terem virado arte e não velhas, que fique esclarecido.

Definitivamente os LPs tinham outra alma. Pode até ser que eu tenha perdido o último trem para Woodstock, ou no caso Rock in Rio 1985, já que faz mais sentido porque no outro eu nem tinha nascido, mas o fato é que a vida é feita de boas lembranças. Boas, muito boas. Memória afetiva é coisa séria. Saudades deste tempo em que os discos significavam mais que simplesmente sentar-se no computador e baixar uma centena de músicas sem esse algo a mais. Também sei que é assim que caminha a humanidade, mas como um pendrive pode competir com uma capa? É covardia.

Com o vinil era outra relação, mais pessoal, mais íntima. E esses anos de pirataria então? Chega dar vergonha ver uma capa xerocada com a qualidade mais do que duvidosa, horrorosa! Fico muito feliz em saber que existam heróis da resistência ressuscitando as bolachas. Agora preciso urgente arranjar uma eletrola e quem sabe marcar uma reunião dançante na garagem! Bora fuçar o baú e limpar as teias e as traças.

2 comentários

  1. Adorava! Para ouvi-lo do jeito correto era preciso todo um ritual,como tirá-lo da capa de plástico, limpá-lo, colocá-lo no prato, posicionar a agulha cuidadosamente e depois de uns 20 minutos virá-lo e repetir tudo novamente. Problema é encontrarmos esse tempo nos dias de hoje!

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